Nenhuma mulher é fantasma
Martha Medeiros
Almodóvar está de novo em cartaz nos cinemas, portanto, hora de sair de casa: Volver é obrigatório.
A cena de abertura nos prepara para o que virá pela frente. Num cemitério, várias mulheres limpam e cuidam dos túmulos de seus maridos: todas sobreviveram a eles. E daí por diante é só o que vemos no filme: mulheres. Os poucos homens que aparecem não podem nem ao menos ser chamados de coadjuvantes, são meros figurantes, quase mortos-vivos: se há algum fantasma nesse filme, não se deixe enganar pelas resenhas, ele é masculino. Mulher é sempre real, comoventemente real.
Já me perguntaram uma centena de vezes quais as diferenças entre homens e mulheres, as diferenças entre a literatura feita por nós e a feita por eles, a velha ladainha: diferença, diferença. Nunca dei corda para essa questão, prefiro exaltar nossas afinidades. Não me interessa incrementar essa guerrinha antiga, que faz parecer que as conquistas femininas são resultado de uma revanche. Sem essa, não contem comigo para ser mais uma a colocar cada sexo num canto oposto do ringue.
Pois bem. Mesmo não sendo afeita a imunizar toda mulher só pelo fato de ser mulher, e tampouco afeita a propagar a pretensa superioridade masculina - está todo mundo no mesmo barco, é no que acredito -, este filme de Almodóvar conseguiu mexer com minhas convicções, já que ele parece conhecer mais sobre nós do que nós mesmas. Ok, uma mulher é apenas uma mulher, mas uma mãe é um vulcão, um furacão, uma enchente, uma tempestade, um terremoto. Uma mãe é invencível. Não há perda que ela não transforme em força. Não há passado que ela não emoldure e coloque na parede. Não há medo que a mantenha quieta por muito tempo.
Volver é mais um tributo que Almodóvar presta a este gênero humano que veio equipado com cromossomos XX, a mulher que não é híbrida, mas é plural; não é bem certa, mas é íntegra, e que ele homenageia de uma forma peculiar: colocando-a em situações-limite. Nesse filme, mais uma vez, o tema abuso sexual volta à tona. E então ele nos vinga, coloca-se a nosso serviço, nos empresta uma força de estivador para enterrar nossos algozes. Ele é o juiz invisível dessa luta em que a mulher sai sempre um pouco machucada, mas invariavelmente vitoriosa.
Almodóvar está do nosso lado, e a gente acaba acreditando mesmo que há dois lados. Filmando com delicadeza e explorando bem a solidariedade e o afeto das latinas, ele nos faz voltar - atenção, volver - à nossa natureza de leoa e à nossa corajosa humildade, aquela que nos faz perdoar e pedir perdão para desobstruir nossos caminhos. Mulheres vão em frente e voltam, mulheres prosseguem e retornam, dois passos pra frente e um passo pra trás, cautela e coragem. As virtudes e pecados sempre dentro da bolsa, inseparáveis, nada se perde. Eis a visão pessoal, passional e parcial desse diretor puro-sangue, que é exagerada, mas instigante: os homens passam, mas as mulheres não morrem.
Domingo, 26 de novembro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.